Aos 14 anos, Gisele Fiales tomou uma decisão que mudaria o rumo de sua vida. Vivendo em um lar disfuncional, ela entrou no primeiro relacionamento e foi morar com o namorado. Naquele momento, acreditava que havia encontrado uma oportunidade para deixar para trás as dificuldades de casa e começar uma nova história.
“Eu não sabia o que estava por vir, nem o quanto de coisas que eu ia enfrentar. Eu achava que, por ser meu primeiro namorado, ele demonstrava muito carinho, queria fazer tudo por mim, me agradar e dizia que iria me tirar daquela vida e que eu teria uma vida melhor”, relembra.
No início, Gisele encontrou no relacionamento aquilo que acreditava estar procurando: carinho, atenção e a promessa de uma vida melhor. Mas, depois do primeiro ano, o comportamento do companheiro começou a mudar. Vieram as proibições, o isolamento, as agressões psicológicas e, posteriormente, as agressões físicas.
“Quando ele começou a mudar, eu pensava: ‘Isso não é ele. Essa pessoa não é ele. Ele é uma pessoa boa, maravilhosa, ele me ama. Deve estar acontecendo alguma coisa que eu fiz e que preciso consertar", conta.
Aos poucos, Gisele deixou de estudar, perdeu o contato com amigas e passou a viver sob controle constante. Mesmo depois das agressões, o companheiro voltava a apresentar o comportamento carinhoso do início da relação, criando um ciclo que fazia com que ela acreditasse que as coisas poderiam melhorar.
“Depois que ocorria toda a confusão, a briga e as agressões, no outro dia ele vinha com bombons. Ele me levava ao shopping, fazia coisas para mim. Ele voltava a me dar tudo aquilo que tinha dado no começo. Então aquilo que ele tinha feito era apagado”, relata.
Aos 15 anos, Gisele engravidou. A violência, porém, não parou durante a gravidez nem depois do nascimento da filha. Anos mais tarde, após uma das agressões mais graves, ela conseguiu sair de casa com a ajuda de uma amiga.
“Eu fui. Fui rápido. E não tive força para chegar até ele e falar: ‘Estou indo embora’. Você sente medo, insegurança e um monte de coisas quando precisa tomar essa decisão”, lembra.
Fora do relacionamento, Gisele começou a reconstruir a própria vida. Estava trabalhando, buscava estabilidade financeira e se preparava para entrar na Justiça para tentar recuperar a guarda da filha. Foi nesse momento que, em 24 de janeiro, há cerca de 25 anos, o passado voltou a alcançá-la.
O ex-companheiro invadiu a casa de Gisele. Ela estava no banho quando ouviu um forte barulho. Ele havia arrombado a porta. “Quando menos esperava, ele entrou e abriu a porta já com uma arma na mão, apontando para mim”, relata.
Ao se levantar para pegar uma toalha, Gisele foi atingida pelo primeiro disparo. Outros tiros vieram em sequência. Para proteger o rosto, colocou os braços à frente e acabou atingida cinco vezes. “Eu fiquei com medo de ele acertar meu rosto, então comecei a me proteger com os braços. Graças a Deus, os tiros pegaram no braço, porque era para terem atingido meu rosto”, conta.
Caída no banheiro, com o chuveiro ligado, Gisele foi encontrada pelas amigas, que haviam combinado de sair com ela naquele dia. Ao chegarem, encontraram a jovem quase se afogando em meio à água e ao sangue. Diante da demora do socorro, as amigas a retiraram do banheiro e aguardaram a chegada do atendimento médico. “Eu fiquei acordada o tempo todo. Só estava muito fraca, com a voz muito baixa. Eu ficava pedindo para não morrer, rezando e pedindo a Deus. Tive uma sensação muito forte dentro daquele banheiro de que Deus estava ali segurando a minha vida."
Gisele foi levada ao hospital e permaneceu inconsciente por dois dias. Quando acordou, teve a sensação de estar enterrada e sem conseguir se mover.
“Eu tinha a sensação de que tinha morrido e estava enterrada, debaixo da terra, pedindo ajuda e ninguém conseguia me tirar dali. Mas aquilo acontecia porque meu corpo não se mexia. Minha mente estava acostumada com os meus movimentos. Então foi um choque. Um choque muito grande."
Aos 18 anos, recebeu dos médicos a notícia de que havia ficado tetraplégica. O tiro que atingiu a medula, na região cervical C5 e C6, provocou uma lesão grave.
“Foi outro baque para mim. Eu pensei: acabou a minha vida. Acabou. Eu não peguei minha filha. Acabou tudo. E agora?”, recorda.
O crime aconteceu antes da criação da Lei Maria da Penha, em 2006, quando os mecanismos de proteção às mulheres vítimas de violência ainda eram mais limitados.
O período seguinte foi marcado por hospitais, dificuldades financeiras e reabilitação. Sem uma estrutura familiar que pudesse acompanhá-la, Gisele contou com a ajuda de amigos, vizinhos e pessoas que se revezavam para auxiliá-la nas atividades básicas.
A recuperação foi longa. Ao longo dos anos, passou por diferentes tratamentos e fisioterapias até recuperar parte dos movimentos e da autonomia.
Há cerca de 16 anos, Gisele vive em São Vicente, onde encontrou profissionais que contribuíram para sua reabilitação. A cidade também se tornou cenário de uma nova fase de sua vida.
Gisele voltou a estudar, atualmente cursa Perícia e Biomedicina e realiza diversos cursos. “Eu acho que nunca é tarde. Enquanto eu tiver fôlego de vida, vou continuar”, diz.
A busca por capacitação também tem o objetivo de conquistar espaço no mercado de trabalho e ampliar a própria independência.
Da sobrevivência à luta por outras mulheres
Hoje, Gisele entende que sua história pode servir de alerta e apoio para outras mulheres. A experiência de ter vivido um relacionamento abusivo e sobrevivido a uma tentativa de feminicídio fez com que ela passasse a atuar como uma voz de conscientização contra a violência.
“Eu me considero uma ativista contra a violência contra a mulher. Tudo o que eu puder fazer para que, um dia, mesmo que eu não esteja mais viva, meus filhos e meus netos possam dizer ‘acabou essa cultura, isso não existe mais’, eu vou fazer”, afirma.
Gisele também defende que a prevenção passe pela educação e pela mudança de comportamento, inclusive entre os homens. “Muitos homens também são vítimas de lares agressores e, para eles, aquilo acaba se tornando normal. Então precisamos mudar a mentalidade de toda a população. Não é uma luta só das mulheres".
A partir da própria experiência, Gisele faz um alerta para mulheres que vivem situações de violência. Para ela, sair de um relacionamento abusivo nem sempre é uma decisão que pode ser tomada de um dia para o outro, e buscar ajuda pode ser o primeiro passo. “Eu sei que é difícil. Não dá para tomar uma atitude do dia para a noite. Porém, existem estratégias e cada vez mais existem caminhos de ajuda”, afirma.
Para ela, continuar viva também significa continuar lutando para que outras mulheres não precisem passar pelo mesmo. “Eu sei como isso acontece. Eu vivi na pele. Eu entendo. Então, qualquer ajuda, qualquer manifestação, qualquer coisa que eu consiga fazer para ajudar, eu vou fazer."
Como buscar ajuda
A violência contra a mulher pode ser denunciada pela própria vítima ou por qualquer pessoa que presencie a situação.
Canais de denúncia e atendimento:
190 - Polícia Militar;
180 - Central de Atendimento à Mulher;
153 - Guarda Civil Municipal;
Disque 100 – Disque Direitos Humanos;
Atendimento municipal especializado contra a violência via WhatsApp: (13) 99130-7047;
OAB Por Elas – Orientação jurídica gratuita para mulheres em situação de violência:
WhatsApp: (13) 99709-5997;
Endereço: Rua José Gonçalves Paim, 145 - Pq. Bitarú.
A Prefeitura reforça que romper o silêncio é o primeiro passo para interromper o ciclo da violência. Denunciar é um ato de proteção, e a rede de apoio está preparada para acolher, orientar e encaminhar mulheres que enfrentam qualquer tipo de violência.
Por Maria Fernanda Lopes