A decisão de retomar os estudos e encarar a sala de aula exige coragem. Se para muitos a angústia por não saber ler ou escrever acaba adiando sonhos, para a dona de casa Mônica da Silva Monteiro, de 50 anos, a virada de chave mostrou que nunca é tarde para recomeçar. Aluna da EJA (Educação de Jovens e Adultos de São Vicente), na Unidade Educacional República de Portugal (Bitaru), Mônica transforma diariamente receios em orgulho e pequenas conquistas da rotina em grandes vitórias.
Mônica havia interrompido os estudos ainda na infância, sem sequer concluir a primeira série. Durante anos, conviveu com as limitações que a falta de alfabetização impunha em tarefas simples do cotidiano. “A minha vida não era boa, porque eu ia para os lugares e não sabia ler nada. Ia ao médico, tinha que preencher aquela ficha, e, muitas vezes, meu marido tinha que fazer por mim, porque eu nem sabia o que estava escrito ali. Eu mal assinava o meu nome”.
O medo de não conseguir acompanhar as aulas e a vergonha de voltar a estudar acompanharam seus primeiros passos na escola. Ao ingressar na EJA, em agosto do ano passado, colocou um desafio e um prazo para si mesma. “Falei para a minha família que se eu não conseguisse ler nada e não aprendesse, ia desistir de estudar. Mas, graças a Deus, como estou aprendendo cada dia mais, para mim é uma felicidade”.
Transformação no cotidiano e autonomia
Com um ano de estudos e um desenvolvimento ainda mais marcante nos últimos meses, a transformação na rotina de Mônica já é visível. Se antes as idas ao mercado exigiam a presença e a dependência constante do marido, hoje a realidade é totalmente diferente.
“No mercado, eu já consigo ler tudo o que eu quero comprar ou não. De primeira, não conseguia fazer nada sem meu marido”.
A conquista da leitura também trouxe autonomia para outros momentos do dia a dia. Mônica agora consegue ler avisos e notícias na televisão, trechos de livros e, com especial alívio, as receitas médicas.
Esse processo de aprendizagem conta com o suporte das aulas e também com o incentivo direto em casa, onde ela exercita a escrita ao lado da família. “Eu já construo algumas frases. Quando faço em casa, meu marido ou minha filha corrige. Aí eu arrumo, e consigo ler aquilo que escrevi”.
Justiça social e valorização da bagagem de vida
A trajetória de Mônica e de seus colegas de turma reflete o propósito do trabalho pedagógico desenvolvido na escola. Para a diretora da UE República de Portugal, Fernanda Felipe, o acesso à EJA vai muito além do aprendizado formal, representando um direito fundamental e uma reparação histórica.
“Ter na nossa família República de Portugal a EJA é ter orgulho do Brasil que não desiste. A alfabetização e a educação de jovens e adultos não é só uma modalidade, é mais do que isso. É garantir direitos pela vida. É dizer que eles têm o direito de aprender, o direito de serem chamados pelos próprios nomes na chamada e o direito de assinar o próprio nome sem ter vergonha, entendendo o que está escrito. Na verdade, a EJA não é uma segunda chance, é justiça social”.
A gestora ressalta que o método de ensino na unidade valoriza todo o conhecimento prévio que os estudantes acumulam ao longo dos anos. “Ninguém que está nas nossas salas está por obrigação, eles estão aqui por uma decisão própria. Nós respeitamos a história de cada um deles e não queremos apagar suas vivências. A gente traz a experiência de uma obra, da feira, do trabalho de casa, da roça, das lojas, e transformamos essa vivência em conhecimento. A leitura do mundo precede a leitura da palavra. Mostramos todos os dias que a educação não tem prazo de validade e que, olhando no espelho do nosso país, não largamos a mão de ninguém”.
Com o sentimento de incapacidade deixado para trás, a meta de Mônica agora é seguir em frente e não parar de estudar. “Eu deveria ter tido vontade de estudar bem mais cedo, mas como tinha vergonha, não voltei. Mas hoje eu vou até o final”.
Orgulhosa do caminho percorrido, ela faz questão de encorajar outros adultos de São Vicente que enfrentam a mesma hesitação em dar o primeiro passo. “Para as pessoas que tiverem vontade de estudar, não tenham medo! Eu tinha muita vergonha de voltar a estudar, e, hoje, graças a Deus, não tenho mais. A minha mensagem é essa. Quem tiver vontade, venha para a escola, porque a melhor coisa que tem na vida é o estudo”.
EJA em São Vicente
A Unidade Educacional República de Portugal integra a rede municipal de ensino de São Vicente, referência na Baixada Santista no atendimento à Educação de Jovens e Adultos. A EJA possui centenas de alunos cadastrados nos modelos presencial e semipresencial, por meio do Cejain (Centro Municipal de Educação de Jovens e Adultos).
As matrículas podem ser feitas nas unidades municipais que oferecem a modalidade para o Ensino Fundamental (Anos Iniciais e Finais). Para realizar o cadastro, é necessária a apresentação de documentos pessoais (RG, CPF e comprovante de residência). A idade mínima para matrícula é de 15 anos e, caso o interessado seja menor de idade, deve estar acompanhado de um responsável legal.
Confira onde encontrar a EJA em São Vicente:
Área Insular
* U.E. Antônio Pacífico — Anos Iniciais e Finais
* U.E. República de Portugal — Anos Iniciais e Finais
* U.E. União Cívica Feminina — Anos Iniciais
* U.E. Renan Alves Leite — Anos Iniciais
* U.E. Sebastião Ribeiro — Anos Iniciais
* U.E. Ercília Nogueira Cobra — Anos Iniciais
Área Continental
* U.E. Francisco Martins — Anos Iniciais
* U.E. CAIC Ayrton Senna — Anos Iniciais
* U.E. Mário Covas — Anos Iniciais
* U.E. Raul Rocha — Anos Iniciais e Finais
Por Leonardo Matos