“A vida é única. Viva o hoje, dance, cante, abrace e realize seus sonhos”. Esse era o lema de Ivani Maria da Silva Gurgel Ramalho, que sempre acreditou que a vida valia mais sendo compartilhada. A alegria estava no riso em conjunto, no samba ecoando da praça e no simples prazer de estar cercada por quem amava. Foi assim que ela se tornou a eterna “Síndica da Praça”, agora oficialmente eternizada no coração de São Vicente, tendo seu nome batizando uma praça localizada entre as ruas Saldanha da Gama e Messia Assu, onde viveu tantas histórias. Agora, o espaço é chamado de Praça Ivani Maria da Silva Gurgel Ramalho - A Síndica da Praça.
“Ver o nome dela nessa praça é uma forma de reafirmar que ela permanece viva em cada lembrança, em cada risada e em cada gesto de carinho compartilhado aqui”, diz em nome da família o filho de Ivani, Marcelo Gurgel, que recebeu a homenagem com emoção e gratidão.
Quem passa por ali, seja morador ou visitante, sente que aquele espaço carrega histórias de música, de solidariedade e de amor.
Nascida em São Paulo, em 19 de agosto de 1950, Ivani cresceu entre risadas, música e coragem. Viveu sua juventude na Vila Mariana, mudou-se depois para São Bernardo do Campo e, no início da década de 1990, escolheu São Vicente como o lugar onde viveria, e faria história.
Ali, na Rua Saldanha da Gama, em frente ao antigo trailer do “Seu Zé e Dona Milica”, ela encontrou o cenário perfeito para espalhar o que sempre teve de sobra: amor, amizade e alegria.
Casada com Flávio Gurgel e mãe de Érika, Ricardo, Marcelo e Flávia, Ivani era presença marcante em tudo o que fazia. Cuidava da praça como quem cuida da própria casa: varria, organizava, plantava e acolhia quem passava por lá. Foi ali que criou memórias, tradições e laços que o tempo não apagou.
De coração aberto, organizava pagodes, festas juninas, churrascos, jogos e encontros que reuniam famílias inteiras. Junto do marido e da amiga inseparável, Marines Leite, fundou a animada ‘Banda Samba Lá da Praça’, símbolo da alegria popular vicentina.
“Minha mãe foi uma mulher de opinião forte e de um gênio único. Sempre disposta a ajudar todos, independente de quem fosse, ela era uma verdadeira matriarca, o alicerce da nossa família”, recorda Érika Ramalho, emocionada ao falar sobre a mãe que se tornou referência do carinho mais puro e bonito que uma pessoa pode ter.
Mas Ivani também era força e solidariedade. Participou da Associação Vicentina de Combate ao Câncer “Genoveva Perez”, e, após a partida do filho Ricardo Bola, em 2015, transformou a dor em generosidade, criando o Natal Solidário, que arrecadava brinquedos e cestas básicas para famílias do Sambaiatuba e da Vila Fátima.
“Ela fazia o possível, e muitas vezes o impossível, para nos oferecer o melhor, seja em um simples picolé num dia quente ou nos valores que nos transmitiu, formando em nós seres humanos de bom coração”, completa Érika.
Carismática, divertida e com um humor irresistível, Ivani não media palavras nem sentimentos. Era conhecida por dizer que “a vida era dela” quando alguém a repreendia por suas teimosias, e respondia a tudo com uma gargalhada franca.
Marcelo resume em uma frase o que mais a simboliza:
“O que mais representava minha mãe era o amor pela convivência e pela vida. Sempre que tinha um tempo livre, descia para a praça, fosse pra encontrar os amigos ou levar os netos à praia. Era ali que ela se sentia em casa, cercada de afeto, alegria e boa conversa”.
De espírito livre e coração acolhedor, Ivani era dessas pessoas que o bairro inteiro conhecia pelo nome. E não apenas conhecia, amava.
Por isso, quando partiu, em 4 de julho de 2021, o silêncio que ficou na praça foi também o de uma saudade coletiva.
Foi ali que Ivani ensinou que viver é mais do que apenas passar pela terra, é partilhar, rir, cantar, brindar. E é ali que ela permanece, em cada roda de conversa, em cada criança brincando, em cada pôr do sol refletido nas lembranças de quem a conheceu.
Mas, como toda história bonita, a dela não terminou. Apenas mudou de forma.
E agora, gravado nas lembranças de uma cidade inteira, segue inspirando todos que passam pela praça que leva seu nome, a praça que foi, e sempre será, o lar de seu coração.
Nunca será um adeus, apenas um até logo.
Por Jessica Costabile