Algumas histórias começam em um momento em que parece não haver mais caminho a seguir. Outras encontram uma nova direção justamente quando alguém decide pedir ajuda. No Hospital Dr. Olavo Hourneaux de Moura, dois pacientes da enfermaria de Saúde Mental compartilham trajetórias diferentes, marcadas por períodos delicados, mas também pela descoberta de que a vida pode continuar sendo escrita.
Antes de chegar à unidade, Lucas* enfrentava dificuldades relacionadas à saúde mental e à dependência química. Em meio a esse período, vivenciou uma situação de grande fragilidade. A internação representou, para ele, uma oportunidade de interromper um ciclo e olhar novamente para a própria história.
Durante o tratamento, o acolhimento recebido pela equipe foi um dos pontos que mais chamou sua atenção: “A equipe é tudo de bom, me tratam bem, como sempre. Geralmente o povo da rua fala que o hospital não presta, fala que o hospital, os enfermeiros são pessoas ruins, isso é tudo mentira. Aqui dentro tratam muito bem!”.
Outro aspecto que ganhou importância durante a internação foi o convívio com os demais pacientes. Ao compartilhar experiências, Lucas* percebeu que cada pessoa chegava ao hospital carregando uma história e que as dificuldades podem ter diferentes origens: “A maioria só está aqui por causa de coisas de trabalho, outros por causa de família, essas coisas. E os que estão aqui conversam comigo, interagem numa boa”.
A convivência também fez com que Lucas* passasse a refletir sobre as próprias escolhas e sobre o que gostaria de construir depois da internação: “Aqui aprendi que a vida é boa, é muito boa para se perder, porque lá fora é uma coisa, aqui dentro é outra. Quando você chega aqui dentro, começa a lembrar de tudo o que você fez lá fora, os esforços que você faz”.
Agora, entre os planos para o futuro, estão atividades simples, mas que ganharam um novo significado. Lucas* quer voltar ao antigo trabalho como pizzaiolo e aproveitar mais o tempo ao lado da família: “Quando sair daqui, quero voltar para meu antigo emprego de pizzaiolo. Gosto muito de fazer massas e colocá-las no forno a lenha, para dar uma boa defumação na pizza. Tenho saudade disso e também quero aproveitar bastante com a minha mãe e minha irmã.”
Para quem enfrenta um momento difícil, Lucas* acredita que falar sobre o que está sentindo pode ser um passo importante.
“Procurar a própria família, se abrir com ela, explicar os motivos que você tem. Alguma coisa que estiver passando na sua cabeça, falar: ‘Poxa, pensei nisso’. Sentar, conversar com o pai, com a mãe, com a tia, com a pessoa que você mais gosta pode fazer bem, assim como me faz bem”, aconselha.
Reconhecer as próprias dificuldades para encontrar um novo caminho
A história de Henrique* também passa por um período de mudanças. Há cerca de um ano e meio, ele mudou de cidade e deixou para trás parte da vida que conhecia. Depois de já ter enfrentado outros momentos delicados, passou a lidar com situações que, segundo ele, já não conseguia enfrentar sozinho.
O momento decisivo veio quando percebeu que seus próprios hábitos haviam criado um ciclo do qual não conseguia sair. Mesmo tendo procurado ajuda anteriormente, interrompeu tratamentos algumas vezes até decidir mudar o rumo da própria vida: “Eu me internei voluntariamente. Tinha que parar de me machucar, eu estava me machucando muito. O basta foi porque já dormia até na rua. Mesmo tendo casa para morar, eu dormia na rua, contraí muitas bactérias e tive machucados na pele por conta disso”, relatou.
Durante a internação, Henrique* passou a enxergar a própria trajetória de outra maneira. Para ele, uma das principais barreiras que precisam ser enfrentadas por quem procura ajuda é o preconceito em torno da saúde mental: “Não se trata da pessoa ser usuário de drogas, de bebidas, de fumo, entre outros. Nem sempre se trata disso. Muito menos sobre ter uma família ruim, porque minha família é maravilhosa. Também nunca tive problema no relacionamento, porque o relacionamento era maravilhoso. Então se trata, às vezes, da própria pessoa”.
Assim como Lucas*, Henrique* encontrou no convívio com outros pacientes uma parte importante do processo de recuperação. Ao perceber que não estava sozinho em suas dificuldades, passou a encontrar forças para enfrentar o próprio processo: “As pessoas que estão internadas aqui têm o mesmo pensamento, de não querer mais estar aqui, e todas querem ter uma vida boa lá fora, querem voltar a estar junto com a família, trabalho e assim por diante. Estar com eles me faz muito bem”.
Com o tratamento, aquilo que antes parecia não ter saída começou a dar espaço para novos planos. Henrique* quer retomar projetos que ficaram pelo caminho e reconstruir vínculos importantes: “Quero continuar a faculdade que não terminei, ver minha filha que deixei em outra cidade, dar orgulho para minha família.”
A experiência também mudou sua percepção sobre a importância de seguir o tratamento. Depois de interromper acompanhamentos anteriores por acreditar que conseguiria enfrentar as dificuldades sozinho, hoje ele reconhece o cuidado como parte fundamental do processo.
“É importante se tratar. Tem que se tratar sim, tem que tomar os medicamentos sim. Eu sei que tem um preconceito alto em relação a medicamentos. Eu entrei muitas vezes no tratamento e parei, porque a gente se acha autossuficiente a ponto de falar que não precisa do medicamento, mas precisa sim”, salientou.
Acolhimento e continuidade do cuidado
Por trás de cada história existe também uma equipe responsável por acolher, acompanhar e construir, junto com o paciente, os próximos passos. No Hospital Dr. Olavo Hourneaux de Moura, os pacientes encaminhados para a enfermaria de Saúde Mental são acompanhados por uma equipe multidisciplinar desde a entrada na unidade até a alta.
O cuidado não termina com a saída do hospital. O tratamento psicológico pode ter continuidade após a internação e, quando indicado, o paciente é orientado e encaminhado para os serviços da Rede de Atenção Psicossocial do Município, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e demais equipamentos da rede.
O Serviço Social também atua na articulação com familiares, rede de apoio e outros serviços necessários, buscando evitar a interrupção do acompanhamento após a alta.
Para Márcia Renata Veloso, assistente social e responsável técnica pela ala de Saúde Mental da unidade, acompanhar esse processo exige atenção às particularidades de cada paciente: “Cada pessoa chega com uma história e uma realidade diferente, e muitas vezes encontramos situações de vulnerabilidade, vínculos familiares fragilizados ou ausência de rede de apoio. Ao longo do atendimento, é muito importante perceber a estabilização emocional, a retomada dos vínculos, a participação no tratamento e a construção de possibilidades para a continuidade do cuidado após a alta”.
Segundo ela, o trabalho é construído de forma conjunta, respeitando as necessidades individuais de cada pessoa: “É um trabalho que exige escuta qualificada, acolhimento, articulação e atuação conjunta de toda a equipe, sempre respeitando a individualidade e as necessidades de cada paciente.”
Como Pedir Ajuda
Em São Vicente, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) oferecem atendimento, de acordo com a necessidade de cada caso, por livre demanda ou mediante encaminhamento. Também contamos com o número do Centro de Valorização á Vida (CVV), que atende casos de maior urgencia, para ligar disque 188
Confira os endereços e horários de funcionamento:
CAPS AD II
Rua Polydoro de Oliveira Bittencourt, nº 299 – Vila Margarida
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
CAPS II Infantojuvenil
Rua Santo Antônio, nº 64 – Jardim Guassu
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h.
CAPS II Domingos Stamato
Rua Polydoro de Oliveira Bittencourt, nº 299 – Vila Margarida
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
CAPS II Jardim Rio Branco
Rua Donald Alexandre Kealman, s/nº – Jardim Rio Branco
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 16h30.
CAPS III Mater
Rua Costa Rego, s/nº – Vila São Jorge
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h
Observação: Os nomes dos pacientes identificados como Lucas e Henrique foram preservados a pedido dos próprios entrevistados. A preservação da identidade observa o direito à privacidade e à proteção da fonte no exercício da atividade jornalística, conforme o artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal, e o artigo 5º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.
Por Giulia Teixeira