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14/04/2021
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Primeira mulher negra na direção da Proteção Básica Social
Uma trajetória de superações; conheça a história de Edna, a primeira mulher negra a assumir a diretoria da Proteção Básica Social de São Vicente

Nascida em Aracaju, capital do estado de Sergipe, Edna Bonfim dos Santos Domingos, de 55 anos, é a primeira filha de três irmãos, a única mulher. Bisneta de escravos, ela teve a infância marcada por muita responsabilidade desde cedo. Seu pai passava muito tempo longe da família e, por isso, ela teve de assumir a casa para que a mãe pudesse trabalhar fora. “Aos sete anos eu limpava, cozinhava e tomava conta dos meus irmãos. Na parte da tarde, eu ia para a escola. Não tinha tempo para brincar”, lembra.

Aos nove anos, Edna mudou-se com a mãe e os irmãos para Santos. A aluna era excelente nos estudos, com boas notas, porém, tinha dificuldades em fazer amizades. Parte disso se explica pela timidez, a outra, mais cruel, foi culpa do bullying que Edna sofria por ser negra e ter sotaque nordestino. “Minha mãe acreditava que ser negra era ruim, então cresci achando isso também. Ela sempre me dizia: lembre-se que você é negra, então se ponha no seu lugar”, conta.

Aos 15 anos, Edna conheceu um amigo que mudaria sua perspectiva de vida para sempre. Michel e Edna frequentavam a mesma igreja e o rapaz se aproximou para fazer amizade. “Ele era muito bonito, eu não entendia o motivo para ele querer fazer amizade comigo”. Mal sabia ela que o amigo a ajudaria a ressignificar o olhar que ela tinha sobre si mesma, renovando sua autoestima e fazendo-a superar o medo de se relacionar com outras pessoas.

As boas notas na escola continuaram a ser uma rotina e, na oitava série, uma professora de matemática orientou Edna a procurar um curso técnico de exatas para conseguir uma colocação no mercado de trabalho, já que a família não tinha recursos para custear uma faculdade. Foi quando sua mãe conseguiu uma bolsa de estudos para que pudesse concluir o Ensino Médio em uma escola particular, cursando técnico em eletrônica. Nesta mesma época, ela conciliava os estudos com o trabalho em uma estamparia de camisetas. “Eu era a única mulher e a única negra em toda a turma. Não tinha dinheiro para nada e ia sempre com a mesma roupa. Às vezes eu saía do trabalho direto para a escola, sem ter o que comer”, explica.

No último ano de curso, ela conseguiu um estágio em uma loja de assistência técnica de computadores, sendo a única mulher a trabalhar no estabelecimento. “Meus amigos de classe conseguiam estágios em grandes empresas e eu não. Naquela época, as empresas não tinham banheiros femininos”, lembra. Após dois anos trabalhando, recebeu o convite para assumir a administração. Edna conta que ficou muito feliz e achou que essa seria a virada de sua vida. Porém, após o esquema de corrupção do então presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello, todos os clientes declararam falência, levando a loja de assistência a fechar suas portas.

Nos anos seguintes, Edna fez de tudo. Foi secretária na igreja que frequentava, vendeu lóculos em um cemitério, trabalhou em um estacionamento. Mas o coração da jovem batia mais forte quando ela pensava no seu sonho: cursar Assistência Social. “Mas eu não tinha condições de pagar a faculdade, pois todo o dinheiro que eu recebia ia para o aluguel. Era só um sonho”.
Ao completar 34 anos, veio o convite de uma amiga para trabalhar em uma rede de supermercados que, como incentivo, dava bolsas de estudos de até 50% para seus funcionários. Edna prestou o vestibular, foi aprovada, e assim, em 2003, o sonho começava a se tornar realidade.

“No final do primeiro ano de curso, eu estava com muitas dívidas e pensei em desistir, mas antes resolvi pedir uma bolsa de estudos para a faculdade. Eu precisava de uma carta de referência de um padre, mas eu não era católica. Foi então que procurei o bispo Dom David e expliquei minha situação. No dia do meu aniversário veio a resposta. Eu fui contemplada com um desconto de 100%, a primeira aluna a conseguir uma bolsa retroativa”, lembra emocionada.

Cursar a tão sonhada faculdade foi uma experiência intensa e transformadora para Edna que se emociona a olhar para trás e ver a estrada percorrida, com orgulho de ser a primeira e única de sua família a possuir diploma de curso superior.

Edna se casou, em 2007, veio o filho Daniel. E em 2008, a Prefeitura de São Vicente abriu um concurso público para assistente social e Edna foi aprovada em sétimo lugar. Ela começou a trabalhar no CER - Centro Educacional e Recreativo, no bairro Vila Ponte Nova. “Apesar de estar formada, era tudo muito novo. Tive a oportunidade de conhecer de perto a realidade e as necessidades das famílias”, conta.

Foram muitos os trabalhos desenvolvidos no CER, com foco nos adolescentes. Ao perceber que alguns jovens já tinham vida sexual ativa e nenhuma informação ou suporte familiar, ela passou a encaminhá-los para a Casa do Adolescente, na Vila Margarida, onde promovia palestras e aulas sobre educação sexual.

Edna também coordenou o Programa de Transferência de Renda do Governo Estadual, que disponibiliza R$ 80 para pessoas em situação de vulnerabilidade. “Nesta mesma época eu consegui fazer uma parceria com uma companhia de limpeza, pois a maioria dos pais das crianças atendidas não conseguia emprego devido à baixa escolaridade. Dessa forma, quatro deles conseguiram o primeiro emprego com carteira assinada”, conta.

Dos 11 anos como servidora pública, oito deles Edna passou trabalhando no CRAS - Centro de Referência a Assistência Social - da Vila Margarida, atendendo famílias que moram em palafitas. Também deixou sua marca no CRAS do Parque das Bandeiras e no CREAS - Centro de Referência Especializado em Assistência Social, na Área Continental.

Na atual gestão, do prefeito Kayo Amado, a ampla experiência e capacidade credenciaram Edna a ser indicada para ser diretora da Proteção Básica Social de São Vicente, se tornando a primeira mulher negra a assumir essa função. “Eu tive a consciência de ser a primeira diretora negra da Secretaria de Assistência Social (Seas), da primeira cidade do Brasil. Após cerca de 130 anos da libertação dos escravos, nós estamos começando a chegar nos melhores lugares da sociedade. Muitos falam que os negros reclamam de tudo, acham que é falta de vontade. Mas não é questão de competência, e sim de oportunidades”, conclui.

Por Isabella Paschoal


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