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Santos - São Paulo - Brasil, 21 de junho de 2024.
23/06/2023
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Dia do Imigrante: UEs registram histórias que conquistaram os corações dos vicentinos

 

Comemorado no domingo (25), o Dia do Imigrante é celebrado por todos os cantos do maior país da América do Sul, conhecido pela receptividade a pessoas que adotam o Brasil como segunda pátria. 
Em São Vicente, tal pluralidade é notória, também, no universo escolar. Nesta reportagem, você vai conhecer a história de três alunos e um professor, que traduzem bem a fama de o brasileiro ser um povo caloroso e receptivo.
 
 
'Eu me sinto brasileiro'', conta professor de São Vicente nascido em Angola
Além de diversos estudantes vindos de outras partes do mundo, a rede municipal de São Vicente tem no quadro de colaboradores um professor que depositou no Brasil a esperança de uma vida melhor. Docente de matemática na UE Vera Lúcia Machado Massis (Náutica 3), José Martins Guerra, 63 anos, nasceu em Angola, país do continente africano. 
Ele tinha 16 anos quando atravessou o Oceano Atlântico com os pais portugueses e os dois irmãos mais novos. Embora fosse bem jovem, o professor se lembra com detalhes dos motivos que trouxeram a família para terras tupiniquins. “Morávamos em Luanda, Capital de Angola, quando houve a Revolução dos Cravos, em Portugal, dando a independência para as colônias”. Angola era uma dessas colônias portuguesas, começando, então, uma briga política pelo poder. O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) foi o partido vitorioso, mas grupos guerrilheiros descontentes iniciaram um grande conflito armado. “Ficamos em Portugal por um ano, mas tanto Angola como Portugal estavam bem conturbados. Seguimos para o Brasil porque duas tias já viviam aqui e fomos morar na Rua do Colégio (Centro)”.
Na escola, a adaptação se deu aos poucos. “Eu tinha sotaque carregado, porém nunca me incomodei com as piadas. Tudo foi muito tranquilo, porque eu aceitava a brincadeira. Agora, meu sotaque é brasileiro”, reconhece, em tom de brincadeira.
Na vida profissional, o docente atuou durante anos no ramo da eletrônica, chegando a ter a sua própria oficina. Paralelamente com o trabalho, fez faculdade de Ciências Contábeis, pós-graduação em Auditoria e Controladoria, até que partiu para a Matemática. “Passei no concurso e, depois de 25 anos, mudei de área. Estou efetivado como professor de São Vicente desde 2010”.
Também no Brasil constituiu família, casando-se com uma sergipana (“estado que fica na mesma direção de Angola”). O filho do casal tem 31 anos e fez o caminho contrário do pai: trabalha e mora em Portugal. “Ano passado fui para Porto visitar meu filho, minha nora e minha netinha, de 3 anos”. 
Há quase cinco décadas vivendo em São Vicente, ele conta que seu coração está aqui. “Eu me sinto brasileiro hoje. Afinal é mais tempo de vida no Brasil do que em Portugal ou Angola. Um país que nos acolheu bem, onde conseguimos trabalhar, nos desenvolver e construímos nossa própria vida”.
 
Menino afegão declara amor pelo Brasil e deseja ''Salaam Aleikum''
Daniel Azizi, de 9 anos (ou 10, pelo calendário oficial do Afeganistão), é refugiado de seu país e veio para o Brasil junto com a sua mãe, pai e três irmãos. Instalados aqui desde agosto de 2022, Daniel estuda na UE Sebastião Ribeiro da Silva (Conj. Res. Tancredo Neves), está no 4° ano, e com a ajuda da equipe da unidade já está se habituando com a nova cultura. 
A mãe, Zakia Azizi, de 30 anos, relata que saiu do Afeganistão por uma questão de necessidade. “Estava muito perigoso, eu tinha medo pela minha família, principalmente pelas crianças. Não tínhamos segurança, qualquer lugar poderia ser bombardeado. Além de que as mulheres não possuem mais direitos, não podemos nem ir para a escola”.
Apesar das dificuldades linguísticas, Zakia está contente com o seu novo lar. “Estamos muito felizes. Nós escolhemos o Brasil, aqui as pessoas são muito acolhedoras e simpáticas. Nós amamos São Vicente, é um lugar lindo”. 
Na escola, Daniel ainda está se adaptando, mas desde a chegada, a evolução foi grande. “A maior dificuldade foi a comunicação; no começo ele não falava nada de português e eu não falava nada da língua dele, usávamos um aplicativo de tradução, mas agora está bem mais fácil. Eu uso muito da comunicação corporal com ele, não adianta só falar, preciso mostrar”, é o que conta a professora do afegão, Raquel Cunha de Castro. 
“É um aluno muito interessado e curioso. É uma verdadeira troca: ele apresenta a cultura dele para os outros alunos, enquanto aprende sobre a nossa”, finaliza a professora.  
Além de Daniel, existem outros três compatriotas matriculados na UE. Para a diretora Sandra Chaves Nascimento, a entrada deles na unidade foi um grande desafio, o qual a equipe e os outros estudantes abraçaram a causa. “Nos sentimos privilegiados por estarmos recebendo esses alunos, é um grande desafio, mas é muito gratificante. Pensei que a adaptação seria muito difícil, mas as coisas estão fluindo super bem, tanto que o Daniel é um dos melhores alunos da sala dele mesmo com as barreiras da língua”, destaca Sandra, acrescentando que o bom acolhimento de todos foi fundamental. “Conversamos com as crianças da UE, preparando para a chegada dos colegas estrangeiros. Contamos muito com eles para receber os afegãos”. 
Daniel está muito bem inserido e já se sente parte da turma. “Eu amo o Brasil, a comida, meus amigos, minha escola e minha família”. Agora distante da guerra, o menino se despediu de nossa equipe com um cumprimentou árabe: “Salaam Aleikum”, (Que a paz esteja sobre vós).
 
 
Ndeye Mboup, 5 anos: de Senegal diretamente na Primeira Cidade do Brasil
Recém chegada às terras brasileiras, a aluna da Unidade Educacional Regina Célia dos Santos, Ndeye Mboup, 5 anos, já pousou diretamente na Primeira Cidade do Brasil. A aluna veio do Senegal há 2 meses junto com seu pai, mãe e irmão.
Omar Mboup, 42 anos, é o patriarca da família e contou à equipe de reportagem que chegou ao Brasil em 2013 em busca de uma melhor qualidade de vida. No início, o pai veio sozinho e só uma década depois conseguiu reunir toda a sua família. 
Para facilitar a adaptação do pequeno Ndeye em São Vicente, os pais optaram por matriculá-la na escola. “No começo foi muito complicado para ela: a comida, a cultura, o clima... Agora, com a ajuda da escola está mais fácil; recebemos um grande suporte”. 
A diretora da UE, Priscilla Perales, relata como foi o desafio de receber uma aluna estrangeira. “No primeiro dia ela chorou muito. Foi complicado, nós não falávamos a língua dela e nem ela a nossa, mas eu gosto de dizer que o amor venceu. Depois desse choque inicial, a escola virou uma festa. Ela veio igual uma princesa, as outras crianças ficaram encantadas”. 
A família e a UE sabem que tudo é muito recente, o caminho é longo, mas todos já estão muito felizes com o percurso. “Está sendo um momento de muita alegria. Ela é super amorosa e acolhedora, apenas a tratamos do mesmo jeito”. 
“Queremos que Ndeye sinta que pertence ao grupo, ela já está bem enturmada”, finaliza a diretora. 
 
 
A linguagem do amor venceu
Apesar da pouca idade, a “pequenã” Alana Vahyolette, 6 anos, já tem muita história para contar. Em 2021, a aluna da UE Matteo Bei 2 (Parque São Vicente) percorreu mais de 6 mil quilômetros com a mãe e a irmã caçula, partindo da Venezuela em direção ao Brasil. A ideia foi a de reencontrar o pai, Orlando Medina, 34, que já se encontrava em São Vicente (SP) havia dois anos.
O motivo foi o mesmo das outras personagens citadas nesta série: a busca por melhores condições de vida. “Não conseguia sustentar minha família lá, mesmo com quatro empregos”, conta Orlando, que atuava como técnico de segurança do trabalho. “Aqui, como motoboy, ganho muito mais”, desabafa.
Antes de chegar ao Brasil, de avião, o patriarca tentou a vida na Colômbia e no Equador. “Minha irmã já estava aqui e disse para eu arriscar também. Foi a melhor coisa que eu fiz. O Brasil me acolheu”. Já o caminho da esposa e das filhas foi bem mais árduo. “As três vieram pela fronteira. Foi perigoso, mas não tinha outro jeito”. 
Alana - A mais velha das filhas, Alana Vahyolette, foi logo matriculada na rede municipal de ensino, na UE do Parque São Vicente. A primeira preocupação foi com o acolhimento. “Ela era super tímida, tinha muita vergonha de conversar. Chorava bastante, mas aos poucos foi interagindo. Todo dia eu sentava com ela, conversava e acalmava. Aos poucos ela foi cedendo e tendo mais segurança”, conta a professora Lariça Figueiredo. A dificuldade é justificável, diante de uma língua desconhecida. “Ela não falava uma palavra em português. A comunicação era complicada, mas tanto eu, quanto ela conseguimos aprender, juntas. Foi desafiador”, relembra a professora, destacando que, hoje, Alana entende a nossa língua.
Sobre o convívio com os colegas, a recepção foi natural. “As crianças a acolheram super bem, até entendiam um pouco do que ela falava. A linguagem do amor é universal, a brincadeira também”. 
Agora, Alana terá a quem ensinar português: sua mãe, Guadalupe, está grávida e terá o primeiro herdeiro (ou herdeira) brasileirinho.
 
 
Texto - Mariana Pinho e Renato Pirauá
Fotos - Tadeu Filho e Davi Lopes
 


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