“Só Por Hoje” decidi mudar, “Só por hoje” decidi resistir e “Só por hoje” decidi viver. Na cidade de São Vicente, entre becos de lutas silenciosas e esquinas de esperança, vive Edson Donizete, 69 anos, um vicentino que transformou suas cicatrizes em medalhas invisíveis. De ex-usuário de drogas à referência de superação, Edson enfrentou os mais duros adversários que a vida poderia apresentar, o vício, a obesidade e o câncer. E venceu todos, com coragem, apoio da esposa Maria Tereza e dos filhos, fé e luvas calçadas.
Morador da cidade há décadas, Edson viveu tempos difíceis. Durante anos, travou uma batalha interna contra o uso de drogas, que começou de forma silenciosa e foi se agravando. Já aos 40 anos de idade, com uma mente cansada da rotina maçante de trabalhar em uma firma como soldador, começou a usar cannabis de forma recreativa nas folgas. O consumo aumentou gradativamente, e quando foi promovido a motorista de carreteiro, conheceu o cloridrato de cocaína. A partir desse dia, o primeiro round de uma luta pela vida começava. Mas foi no olhar firme de sua esposa, Maria Tereza, e no amor de sua família que encontrou o primeiro chamado para mudar.
O primeiro round dessa transformação começou em 2007, quando, em um momento de desespero, e um ultimato da esposa, procurou forças na fé e na espiritualidade. A porta aberta que encontrou foi a do Alcoólicos Anônimos, onde passou cinco anos frequentando reuniões diárias. Ali, descobriu que não estava sozinho e que cada pequeno passo podia ser um passo definitivo rumo a uma nova vida. “Só por hoje” tornou-se seu lema diário.
“Nos Alcoólicos Anônimos, nós temos uma frase que eu fiz questão de tatuar no braço que é 'Só Por Hoje', e esse é o sentimento até agora. Só por hoje eu não vou usar drogas; só por hoje vou me alimentar direito”. Emocionado, Edson relembra, “O que mais conversamos é como é difícil mudar se continuarmos com a mesma rotina, andando com a mesma galera, frequentando os mesmos lugares. Foi quando, através do grupo, conheci outras pessoas, e ali iniciei um processo de readequação da minha vida”.
Controlando o vício, outro desafio surgiu, a obesidade. Sem o uso das drogas, Edson encontrou refúgio na comida. A aposentadoria trouxe o conforto, e o peso se acumulou junto com as lembranças de um passado que ainda pesava no peito. Mas mais uma vez, a vontade de viver falou mais alto.
Foi por meio de um projeto da Prefeitura de São Vicente, que oferecia aulas gratuitas de boxe, que Edson encontrou seu novo caminho. Aos 52 anos, ingressou na modalidade e descobriu mais que um esporte, encontrou disciplina, saúde, equilíbrio emocional e uma nova paixão. No ringue, enfrentou não adversários, mas a si mesmo. A cada golpe, deixava para trás o passado; a cada respiração ofegante, renovava seu futuro.
“Foi o boxe que me deu a estrutura. Eu me reconstruí dentro daquele ginásio. Ali, eu suava o que me fazia mal, e respirava tudo o que queria ser”, conta emocionado.
A história parecia seguir com capítulos de superação e conquistas, até que um novo golpe chegou, de forma silenciosa e dura: um diagnóstico de câncer de próstata. A notícia veio na anti-véspera de Natal, e desestruturou não só as festas em família, mas também os planos e as certezas. A batalha agora era outra, contra o próprio corpo e o medo do incerto.
Aquele Natal acabou para nós, foi totalmente destruído, tínhamos medo do desconhecido. Pensei que minha vida estava finalmente na rota certa, mas novamente o destino me procurou”.
Mas Edson não recuou. Com a mesma força com que se manteve de pé diante dos vícios, encarou o tratamento com dignidade, sempre amparado pela esposa e família, pelos valores que construiu ao longo dos anos. Continuou, mesmo que com menos frequência, a frequentar o ginásio. Lutava por dentro e por fora. E venceu. Hoje, curado, continua firme no propósito de devolver ao mundo aquilo que recebeu: apoio, acolhimento e uma nova chance.
“Se antes eu lutava para sobreviver, hoje eu luto para viver”, resume com olhar sereno e palavras que tocam fundo.
Edson se especializou como juiz de boxe, conheceu ídolos da modalidade como Maguila, e passou a colaborar voluntariamente nas aulas do Ginásio Poliesportivo Dondinho, no Catiapoã. Além de ensinar técnicas, compartilha sua história com os mais jovens, muitos deles em situação de vulnerabilidade. É exemplo de que o esporte e a força de vontade podem salvar, transformar e reescrever destinos.
“Se eu conseguir tirar um jovem das drogas, ou até do vício nas telas, e trazê-lo para cá, sinto que cumpri meu papel. Porque sei que ali começa uma nova história”.
A história de Edson Donizete é símbolo da resistência silenciosa que habita os corações daqueles que decidiram, um dia, levantar-se. Símbolo do poder da escolha, da força da família e do impacto que políticas públicas de inclusão e esporte podem gerar. Edson não é apenas um sobrevivente. É inspiração. É prova de que cada luta, por mais dura que pareça, pode terminar em vitória.
Por Luis Gomes