"O espaço, a fronteira final… audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.” A frase icônica criada pelo roteirista Gene Roddenberry para a série Star Trek deixou de ser apenas ficção científica na vida do vicentino Raphael Alves Hailer.
O que começou como curiosidade no ensino médio transformou-se em uma carreira internacional no setor espacial. Engenheiro mecânico formado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Raphael é atualmente pesquisador visitante no Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA, e doutorando nos Estados Unidos. Sua trajetória é marcada por coragem, excelência acadêmica e o orgulho de representar São Vicente no cenário científico internacional.
Raphael iniciou sua jornada acadêmica em 2018, ao ingressar no curso de Física da Unicamp, com o objetivo de se tornar professor. Ainda no primeiro semestre, conheceu as equipes extracurriculares da universidade — entre elas, a Antares, dedicada ao desenvolvimento de foguetes e nanossatélites, satélites artificiais com massa inferior a 10 kg.
Foi ali que um antigo sonho ganhou força.
Apesar do interesse pelo setor espacial, Raphael não acreditava ser capaz de seguir esse caminho. A convivência com estudantes de engenharia e a participação em projetos aeroespaciais mudaram sua perspectiva. Em uma decisão ousada, deixou o curso de Física, prestou novamente o vestibular e, em 2019, ingressou em Engenharia Mecânica na Unicamp. Na Antares, assumiu a liderança do departamento de estruturas e aerodinâmica. Sob sua gestão, a equipe conquistou o segundo e o terceiro lugares na Latin American Space Challenge, em 2020 e 2021 — a segunda maior competição universitária de foguetes do mundo.
Determinando-se a buscar oportunidades no exterior, Raphael dedicou-se a obter as melhores notas da turma para concorrer aos programas de duplo diploma na França. Foi aceito por três instituições de prestígio: ENSTA Paris, ENSAM e INSA Rouen. Optou pela ENSTA Paris, onde aprofundou seus estudos em engenharia e participou de projetos de pesquisa em colaboração com a Agenzia Spaziale Italiana (ASI) e a ArianeGroup.
O percurso, no entanto, não foi simples. Raphael precisou aprender francês do zero e alcançar proficiência em poucos meses para garantir a matrícula. Após não ser selecionado para a bolsa Eiffel, enfrentou incertezas financeiras até conquistar a bolsa BRAFITEC, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que viabilizou sua permanência na França. Durante o intercâmbio, foi selecionado como aluno visitante na École Polytechnique, onde aprofundou seus estudos em ciência espacial. Foi ali que surgiu a conexão que mudaria sua trajetória.
Por meio de um contato acadêmico, Raphael foi indicado ao Jet Propulsion Laboratory, laboratório da NASA gerido pelo California Institute of Technology (Caltech), e selecionado para o Visiting Student Research Program. Para viabilizar sua ida aos Estados Unidos, conquistou uma das bolsas mais concorridas do país: tornou-se fellow da Fundação Estudar, que financiou sua estadia.
Entre setembro e novembro de 2024, trabalhou em um projeto de alta relevância científica: desenvolveu um código de simulação para estimar o transporte e a deposição de contaminantes moleculares em corpos celestes sem atmosfera, como a Lua. O estudo permite diferenciar o que é material originário do próprio corpo celeste e o que resulta da atividade humana — questão crucial para missões como o programa Artemis, que pretende levar astronautas ao polo sul lunar.
Seu trabalho foi apresentado na Lunar and Planetary Science Conference 2025 e chegou ao headquarters da NASA, em Washington. “Foi a realização de um sonho de infância”, afirma.
A trajetória foi marcada por decisões difíceis: abandonar um curso já conquistado, aprender francês em tempo recorde, enfrentar reprovações em bolsas internacionais e passar por processos seletivos altamente competitivos. Para Raphael, o maior desafio foi acreditar em si mesmo. “No ensino médio, eu tinha dificuldade em matemática. Descobri que meu problema não era a matéria, mas a autoconfiança.”
Ele reforça que a educação vai muito além do conteúdo técnico: “Aprender é questionar, é desenvolver pensamento crítico. A educação transformou completamente minha vida.”
Filho de uma família trabalhadora, Raphael foi o primeiro a sair do país. Ele faz questão de destacar suas origens. “Venho de uma família comum. Se eu consegui, qualquer jovem de São Vicente pode conseguir.”
Raphael acredita que a cidade tem potencial, mas precisa ampliar incentivos científicos, como feiras, olimpíadas e competições estudantis. Destaca como positiva a chegada do Instituto Federal e valoriza instituições públicas que promovem educação gratuita e de qualidade. Sempre que pode, retorna à escola onde estudou para conversar com alunos e compartilhar sua trajetória. “Quero ser inspiração para que outros jovens possam representar o Brasil na NASA como eu representei.”
Atualmente trabalhando como engenheiro mecânico em São Paulo, Raphael foi recentemente aprovado no doutorado em Engenharia Mecânica na University of California, Santa Barbara. Em breve, retornará aos Estados Unidos para continuar pesquisando nas áreas que mais o fascinam: simulação numérica, dinâmica de fluidos e missões espaciais.
Seu objetivo é contribuir para o avanço científico e tecnológico — e, acima de tudo, mostrar que sonhos considerados impossíveis podem se tornar realidade. A principal lição que deixa é simples, mas poderosa: “Nenhum sonho é grande demais. Tenham um plano, trabalhem duro e, acima de tudo, façam aquilo que vocês amam. Não façam por dinheiro. Façam por paixão.”
De São Vicente ao laboratório mais prestigiado da NASA, Raphael prova que talento, disciplina e coragem podem atravessar oceanos — e até alcançar a Lua.