Quando as luzes se acendem na areia da praia e a história de São Vicente começa a ser contada, não é somente um espetáculo surgindo, mas sim uma vida inteira projetada em atos. Para o diretor da Encenação da Fundação da Vila de São Vicente deste ano, José Luiz Morais, conhecido como Luigi, o espetáculo não é um trabalho, mas um compromisso construído ao longo dos 50 anos – completados exatamente neste ano de 2026 – de memória e amor pela Cidade. Destes 50, 30 são dedicados ao maior espetáculo em areia de praia do mundo.
Luigi chegou a São Vicente em 1976, ainda adolescente, e, desde então, a Cidade deixou de ser apenas sua casa, tornando-se sua referência cultural e artística. Foi em São Vicente que construiu sua trajetória pessoal, profissional e criativa. “São Vicente é onde desenvolvi minha identidade cultural e onde dedico meu trabalho à arte, à educação e à preservação da história”, afirma.
Essa relação profunda se reflete na responsabilidade de dirigir a Encenação. Para Luigi, a maior virtude da Encenação está no encontro humano, em dividir a arena com os atores, sentir a vibração do elenco e transformar aquele espaço em um organismo vivo, capaz de transportar o público diretamente para 1532, nas terras de Gohayó.
“A responsabilidade é imensa. Dirigir a Encenação é lidar com história, técnica, emoção e memória coletiva e, sobretudo, honrar os personagens fundadores e a própria Cidade”, reforça.
A arte em sua vida,M sempre foi construída em família. Sua trajetória pessoal se confunde com a do espetáculo. Sua esposa, Karla Ribeiro, atua na concepção da maquiagem artística e cabelo do espetáculo como profissional de Visagismo, enquanto seu sobrinho, Júlio Vianna – seu sócio –, atua como diretor musical e de conteúdo audiovisual, sendo responsável pela concepção tecnológica. Suas netas, Agatha e Melissa, protagonizarão o papel de crianças indígenas.
“A Encenação também é construída do encontro de várias famílias que reforçam os laços no mundo atual ”, ressalta.
Antes de assumir a direção geral, Luigi percorreu todos os caminhos possíveis dentro do espetáculo. Foi ator, preparador de elenco, diretor assistente, produtor, roteirista, assistente e coordenador, até assumir já por três vezes a direção geral e toda concepção. Cada função lhe ensinou o valor de cada etapa desse evento. “Essa vivência me deu a maturidade necessária para assumir uma das funções mais complexas da cultura brasileira com respeito e consciência histórica”.
Ao longo dos anos, momentos inesquecíveis marcaram sua trajetória na peça teatral. Em 2000, durante as comemorações dos 500 anos do Brasil, o relógio de contagem regressiva do outro lado da praia emocionou o público. Em 2006, a arena foi atravessada por artistas do grupo Fratelli, suspensos nas alturas como harpias, desafiando a gravidade. Outra passagem marcante foi em sua primeira direção geral, quando escreveu o texto em uma máquina de escrever, e, ao celebrar os 30 anos da Encenação, homenageou cada diretor que construiu essa história antes dele.
Mesmo habituado a grandes produções em outras cidades, Luigi reconhece que nenhuma se compara à complexidade da Encenação de São Vicente. “A geografia, o calendário, a data histórica da chegada de Martim Afonso, em meio a festas de fim de ano e férias escolares, tornam o processo desafiador para produção e execução. Ainda assim, a persistência fala mais alto. A Encenação é um compromisso de vida e um poderoso instrumento de educação histórica, cultural e cidadã”.
Presente nessa história desde 1984, Luigi define como maior legado não apenas as soluções técnicas ou as grandes cenas, mas o envolvimento da comunidade. Para ele, cada edição é escrita e dirigida coletivamente, com as mãos e os sonhos de quem faz o espetáculo acontecer.
Em suas direções, o grande elenco sempre foi sua maior inspiração. E, neste ano, a proposta ganha um novo olhar, uma visão histórica voltada às questões ambientais, conectando São Vicente ao caminho de seus 500 anos, despertando uma consciência coletiva inspirada na ancestralidade dos povos originários.
“Esse é o legado que acredito deixar: arte, pertencimento e consciência histórica. Uma Encenação mais inclusiva, que dialogue com todos os tempos e que, como a própria São Vicente, continue viva, pulsante e essencial”.
Encenação 2026
Considerada o maior espetáculo em areia de praia do mundo, a Encenação acontece de 21 a 24 de janeiro, na Praia do Gonzaguinha (Praça Tom Jobim). A peça retrata a fundação da vila de São Vicente, em 1532.
Nesta edição, o personagem Martim Afonso de Sousa, fundador da Primeira Cidade do Brasil, será interpretado por Tio Paulo, artista e influenciador digital com quase 5 milhões de seguidores no Instagram. Já a personagem Índia Bartira será vivida por Marissol Dias, atriz com trajetória consolidada nas encenações vicentinas.
A programação da Encenação 2026 inclui uma área imersiva, proporcionando ao público uma experiência sensorial na história de São Vicente. Ao lado da arena, estará a Feira SV 360, iniciativa voltada ao fomento do empreendedorismo local.
A Encenação 2026 é incentivada via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com patrocínio de Brasil Terminal Portuário, GranServices, Grupo Ecorodovias e Sabesp. A iniciativa é uma realização da Associação dos Artistas e Prefeitura de São Vicente, com apoio da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo.
Por Luis Gomes