Neste 31 de março, é celebrado o Dia Internacional da Visibilidade Trans, data que chama a atenção para a luta por direitos e para o preconceito enfrentado por pessoas trans. Em meio a esse cenário, o vicentino Alex Bruno, homem trans, compartilha sua trajetória de autoconhecimento, desafios e superação.
Alex tem 25 anos, é formado em Publicidade e Jornalismo e possui grande interesse por cinema, literatura e música. Sua jornada rumo à transição começou ainda na infância, quando percebeu que não se identificava com as expectativas associadas ao gênero atribuído no nascimento.
“Eu preferia jogar Yu-Gi-Oh! do que passar horas fingindo que tomava chá da tarde com bonecas, por exemplo. Não vou negar que já participei, mas era algo que não fazia sentido para mim. Não era nem pelas meninas ou pela companhia, mas eu sentia que não era o meu lugar ali”, relembra.
Aos 16 anos, Alex começou a expressar de forma mais concreta sua identidade, adotando roupas mais masculinas e, aos poucos, assumindo quem realmente era. Um dos marcos desse processo foi o corte de cabelo curto.
“O cabelo é algo muito representativo. Querendo ou não, a sociedade é mais conivente com meninos que deixam o cabelo crescer, mas julga muito meninas que cortam o cabelo curto. Foi algo muito significativo para mim”, afirma.
O processo, no entanto, não foi simples. A fase de autodescoberta foi marcada por dúvidas e conflitos internos.
“O pior momento é quando você sente algo, mas não consegue explicar ou colocar para fora. Foi um período sufocante. Eu estava no colégio, via meninas e meninos buscando um padrão de comportamento, de corpo, de se vestir, e eu não me encaixava em nenhum deles. Isso gerou uma crise muito forte sobre quem eu era”, relata.
Além dos desafios internos, Alex também enfrentou o preconceito externo, especialmente na perda de vínculos.
“Acho que o que mais me marcou no início foi a perda de amizades por preconceito. Quando comecei a expressar quem eu era, muitas pessoas se afastaram. Mas também percebi quem realmente ficou. Essas pessoas me acolheram, me deram apoio e estiveram ao meu lado quando eu mais precisei”, conta.
Apesar das dificuldades, ele destaca a importância da rede de apoio construída ao longo do tempo.
“Eu tive a oportunidade de escolher quem eu chamava de família. Muitas pessoas LGBTQIA+ encontram esse acolhimento em amigos, que se tornam irmãos. Eu tive pessoas que me acolheram, tentaram me entender e até foram minha voz quando eu não conseguia falar. Isso mexe muito comigo. Muitas vezes, encontrei forças que nem sabia que tinha”, afirma.
Alex também ressalta o papel fundamental do acompanhamento psicológico em sua trajetória.
“Uma das pessoas mais importantes na minha vida foi minha psicóloga. Tenho certeza de que, sem esse apoio, eu não teria conseguido chegar onde estou hoje. Sempre reforço para meus amigos a importância do acompanhamento psicológico nesse processo”, acrescenta.
Outro marco importante foi a conquista da retificação dos documentos e o início da terapia hormonal.
“Tenho muito orgulho de ter conseguido fazer tudo sozinho. Na época, eu ainda era estagiário e recebia uma bolsa-auxílio de 600 reais. O processo envolve muitos documentos, idas a cartórios e custos. Foi uma conquista muito significativa para mim. Fico triste por não ter tido apoio em alguns momentos, mas também muito orgulhoso por ter conseguido seguir em frente”, destaca.
Sobre a vivência enquanto homem trans, Alex reforça que a jornada é contínua.
“A luta é diária, um dia de cada vez. A autoaceitação é o período mais difícil, mas, depois disso, tudo fica mais leve. Você passa a viver o presente com mais clareza e a planejar o futuro com mais confiança”, diz.
Para quem ainda está em processo de descoberta, ele deixa uma mensagem de apoio:
“Se respeite, respeite o seu tempo e se dê valor. Isso vai te dar força e coragem para seguir em frente. A transição leva tempo, mas você não está sozinho”.
Por Luan Guerato e Julia Guedes Rodrigues de Lima