Luiz Manuel, de 18 anos, nem sempre soube o que responder quando alguém perguntava o que ele gostava, queria ou pensava. Acostumado a seguir rotinas já estabelecidas dentro do serviço de acolhimento, o cotidiano não ofertava muitas escolhas. Foi fora desse ambiente institucional que, aos poucos, isso começou a mudar.
A virada começou quando ele conheceu Andréa, de 55 anos, analista de processos de importação e exportação, há 2 anos, dentro do Programa Municipal de Apadrinhamento Afetivo de São Vicente. A iniciativa aproxima moradores de crianças e adolescentes que vivem em acolhimento institucional, especialmente aqueles com trajetória prolongada e menor perspectiva de reintegração familiar ou adoção, criando vínculos fora da instituição e ampliando experiências de convivência.
Antes mesmo de qualquer aproximação, existe um processo. Andréa passou por reuniões, orientações e momentos de preparação junto à equipe técnica. Do outro lado, os adolescentes também foram acompanhados até o encontro coletivo, onde padrinhos e possíveis afilhados se conheceram pela primeira vez. Dias depois, veio a escolha, feita por eles.
No caso de Andréa, a surpresa veio junto com a notícia. Luiz, que havia sido um dos mais quietos naquele primeiro encontro, foi quem a escolheu. “Eu não acreditei. Para mim, ele tinha sido um dos que menos tinha se aproximado”, lembra. A timidez, no entanto, não demorou a dar espaço para algo inesperado. No primeiro encontro a sós, já fora do ambiente coletivo, ele conduziu a conversa de um jeito que nem ela previa. “A gente ficou horas conversando, ele falou sobre a vida dele. Foi algo que me marcou muito, porque não era o que eu esperava para aquele momento”.
A partir dali, o vínculo começou a se construir dentro da rotina. Luiz passou a frequentar a casa de Andréa nos finais de semana, dividir o tempo entre séries, videogame, idas à praia e encontros com amigos. A convivência com João Vitor, filho dela e da mesma idade de Luiz, também aconteceu de forma natural. “Eles foram se aproximando no dia a dia, jogando, conversando. Quando a gente percebeu, ele já estava inserido na rotina, com os amigos, com a gente”.
Com o tempo, as mudanças começaram a aparecer — e não de forma grandiosa, mas nos detalhes. “Antes, tudo era ‘a senhora que sabe’. Ele não opinava. Não dizia se gostava ou não das coisas. Hoje ele fala quando não está bem, diz o que quer, o que não quer. Parece simples, mas não é. Isso é muito significativo”, explica Andréa, ao destacar uma das principais transformações que o apadrinhamento proporciona.
A história de Luiz ajuda a entender esse processo. Ele e os irmãos passaram anos em acolhimento institucional após rupturas familiares, em uma realidade em que as escolhas, muitas vezes, são limitadas ao que é possível dentro daquele contexto. “Eles vivem o que é oferecido. Fazem o que está proposto. Quando começam a sair disso, percebem que podem escolher. Que podem gostar ou não gostar de algo. Que têm opinião”, reflete.
É nesse ponto que o apadrinhamento afetivo cumpre seu papel mais profundo: ampliar repertórios e apresentar possibilidades. Não substitui a família nem promete soluções imediatas, mas abre espaço para novas referências, novas vivências e, principalmente, para o desenvolvimento de identidade.
No caso de Luiz, isso já se traduz em planos. “Ele fala que quer uma vida diferente da que teve. E hoje ele entende que pode tentar construir isso”, conta Andréa.
Dentro de casa, o impacto também foi sentido. O que começou como uma iniciativa individual acabou envolvendo toda a família. Datas comemorativas passaram a ser compartilhadas, e a presença de Luiz deixou de ser eventual. “Ele passou o Natal com a gente, o Ano-Novo, está nas nossas comemorações. Hoje, ele faz parte”, afirma.
A experiência, segundo Andréa, também transforma quem acolhe. “A gente entra achando que vai proporcionar algo para eles, mas vive situações que são muito mais deles para a gente. Foi um divisor de águas dentro da minha casa”.
Sem prazo definido, o apadrinhamento segue no tempo de cada relação, respeitando o ritmo e a construção de cada vínculo. No caso deles, o que começou com um encontro tímido se consolidou como uma relação para a vida toda.
E, no meio desse processo, Luiz deixou de apenas se adaptar ao mundo ao redor para, aos poucos, começar a ocupar um espaço dentro dele, com voz, escolha e a segurança de quem, agora, sabe que não está sozinho.
Serviço
Interessados podem entrar em contato pelo telefone (13) 3304-7356 ou pelo e-mail criandolacos@saovicente.sp.gov.br ou ir até a sede do programa - Av. Marechal Deodoro, 169 - Vila Valença (CRAS) - 2º andar. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
Para mais informações, acesse o link: https://www.saovicente.sp.gov.br/carta-de-servicos/beneficios-e-cadastros-sociais/apadrinhamento-201cafetivo-criando-lacos201d
Informações da Prefeitura