Há momentos em que recomeçar parece distante demais para quem está tentando apenas atravessar o dia. Foi nesse cenário, entre episódios de depressão, dificuldades financeiras e a responsabilidade de criar os filhos em meio a uma rotina marcada por dores emocionais, que Adonil Teixeira de Paula, de 60 anos, encontrou no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos um ponto de apoio para reorganizar a própria trajetória.
Ela chegou ao serviço por incentivo da irmã, que havia recebido um panfleto sobre as atividades oferecidas pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Na época, aos 39 anos, a ideia de participar ainda parecia improvável. “A princípio eu relutei, mas ela insistiu e fui conhecer. Aos poucos, passei a me dedicar”.
O atendimento integra a política de assistência social do município e tem como proposta oferecer espaços de acolhimento, escuta e desenvolvimento de atividades que fortaleçam vínculos familiares e comunitários, estimulem a autonomia e contribuam para a superação de situações de vulnerabilidade social. Mais do que uma programação de rotina, o serviço atua como ferramenta de apoio emocional, convivência e construção de novos caminhos para quem atravessa momentos de fragilidade.
Quando iniciou sua participação, Adonil conta que ainda carregava um sentimento constante de insegurança. “Expectativa e ansiedade eram minhas companheiras, porque eu acreditava que não era merecedora das oportunidades e dos direitos de que tanto falavam”. A dor emocional também afetava sua permanência nas atividades. “Foi uma época muito difícil. Eu chegava no coletivo sem vontade de executar o que era ensinado, chorava muito, porque a depressão e a angústia eram muito presentes na minha vida”.
Mãe, moradora de São Vicente e hoje engajada em causas sociais, ela carrega uma trajetória marcada por desafios que começaram cedo. Na infância, enfrentou problemas graves de saúde, conviveu com limitações físicas e cresceu em uma família de poucos recursos, na qual dividia materiais escolares com a irmã para conseguir estudar. Mais tarde, ainda adolescente, viu muitos planos serem interrompidos por uma gravidez precoce e pela necessidade de amadurecer antes do tempo.
Já na vida adulta, enfrentou episódios de violência doméstica, depressão, dificuldades financeiras e o peso emocional de não conseguir oferecer aos filhos tudo aquilo que desejava. Foi em um dos períodos mais difíceis dessa caminhada, quando lidava com angústia constante e o emocional fragilizado, que encontrou no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos um ponto de apoio para reorganizar a própria vida. Foi dentro de uma oficina de artesanato, no entanto, que um novo capítulo começou a se desenhar.
“Teve uma aula de confecção de chinelos com pedrarias que foi um marco para mim”, relembra. O que inicialmente parecia apenas mais uma atividade dentro da programação do serviço se transformou em oportunidade concreta de mudança. A partir da oficina, Adonil passou a produzir suas próprias peças, desenvolvendo modelos personalizados e comercializando os produtos. “Foi através dessa oficina que comecei a criar e vender, principalmente para servidores da Prefeitura”.
Mais do que uma fonte de renda, a atividade representou a recuperação da confiança e da autonomia. “Consegui, através das habilidades que adquiri, suprir com o mínimo possível as necessidades dos meus filhos”.
Ao longo do processo, que durou 2 anos, ela destaca que o suporte recebido foi além das oficinas práticas. O acompanhamento dos profissionais e os espaços de diálogo ajudaram a reconstruir também sua percepção sobre si mesma e sobre o lugar que ocupa na sociedade. “As rodas de conversa com psicólogas e assistentes sociais ficaram muito marcadas para mim, porque elas nos direcionavam e davam noção dos nossos direitos e deveres”.
Segundo Adonil, o diferencial do serviço esteve justamente na forma como foi acolhida. “A contribuição foi significativa porque havia dedicação da equipe em entender e compreender de que forma poderia ajudar. Tudo era novo, inclusive para muitos profissionais, mas acredito que foi gratificante para todos”.
Hoje, ao olhar para trás, ela reconhece a dimensão da transformação vivida desde aquele primeiro contato. “Sou uma mulher que entende o meu lugar na sociedade. Estou fortalecida e caminho com minha cabeça erguida”.
A trajetória de Adonil representa, na prática, o propósito do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos: oferecer mais do que um atendimento pontual, criando um ambiente no qual usuários possam desenvolver autonomia, fortalecer relações e encontrar suporte para reorganizar diferentes aspectos da vida.
Para quem ainda não conhece o trabalho realizado pela rede socioassistencial, ela deixa um conselho direto: “Que conheça o serviço baseado na sua própria experiência e busque apoio e suporte para seus problemas”.
Hoje, a mulher que um dia chegou sem forças para participar de uma atividade é a mesma que transformou aprendizado em renda, acolhimento em força e dificuldade em impulso para seguir adiante.
“Quando alguém encontra, no meio da vulnerabilidade, um espaço disposto a estender a mão, tudo começa a se encaixar”, conclui.
Serviço
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) atende pessoas em situação de vulnerabilidade social, com foco no envelhecimento saudável, autonomia, fortalecimento de vínculos e prevenção de riscos sociais.
Interessados podem entrar em contato pelo telefone (13) 3304-7356 ou pelo e-mail criandolacos@saovicente.sp.gov.br ou presencialmente, na sede do programa - Av. Marechal Deodoro, 169 - Vila Valença (CRAS) - 2º andar. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.