A trajetória de Rita de Cássia, mais conhecida como MC Rita, é lembrada pelo sucesso “Amor de Verdade”, que soma mais de 790 milhões de visualizações. No entanto, o início de sua relação com a música aconteceu muito antes da projeção nacional, ainda na infância, na Área Continental de São Vicente, região onde cresceu e construiu suas primeiras referências musicais.
“Eu cantava na igreja e cantava em casa, os vizinhos da rua, até hoje tem gente que me encontra e fala ‘Nossa, eu lembro quando você ficava cantando lá no quintal’, e eu cantava na rua, vivia cantando. Lá onde eu moro, era conhecida como ‘a menina que vivia na rua cantando’”, lembra.
A oportunidade de ingressar no meio musical surgiu de forma simples, mas decisiva. “A gente ficava brincando ali na frente de casa, e o namorado de uma amiga minha falou: eu tenho uns amigos, se eu te apresentasse para eles, pra tentar algo mais profissional, você toparia? E aí, depois disso, foi só sucesso".
Moradora do bairro Humaitá, a artista, hoje com 25 anos, destaca o impacto de sua trajetória entre jovens da Área Continental, onde segue sendo referência para crianças e adolescentes.
“Eu fico muito grata. Hoje, eu tenho um público de crianças muito, muito grande. E essa parte é o que mais me pega: poder cantar músicas mais leves e ser muito querida pelas crianças, com o apoio das mães. E aí, tem crianças lá do Humaitá, que eu vejo crescer e falam que querem ser cantoras. ‘Ah, eu quero ser cantora igual a Rita’. Aí tem os meninos que querem ser MC. Só gratidão. Sem palavras".
Após consolidar sua carreira no funk, MC Rita iniciou uma transição para o pagode, estilo com o qual sempre teve identificação.
“Eu sempre fui fã de Péricles, Ludmilla, sempre usei como referência o ExaltaSamba. Eu amava. E achei que ia ser bem difícil essa troca de ir do funk pro pagode. Achei que não ia ser muito aceita, mas me surpreendeu muito. A maioria das mensagens que eu recebi era ‘você devia ter feito isso antes. Sua voz sempre combinou com o pagode".
Segundo a artista, a mudança também permitiu maior destaque vocal. "No pagode, a minha voz é mais mostrada, mais vista. E sempre foi um sonho, hoje em dia eu tô realizando devagarzinho, tô chegando lá".
Ela também destaca as diferenças entre os gêneros. “E o pagode também muda o jeito um pouco de se expressar. O pagode é um negócio mais sentimento. No funk, a gente expressa muitas coisas que a gente quer falar, que a gente sente, mas a realidade é diferente".
Desafios e representatividade
MC Rita também reflete sobre os desafios de ser mulher no meio musical, especialmente atuando em dois gêneros populares.
“Antigamente era bem mais difícil. Hoje, tem bastante mulher no ramo do pagode. Muitas mulheres estão vindo nessa levada, estão se sentindo bem de cantar isso, de trazer isso. Tem a internet também, que o público hoje em dia abraça mais, e deu uma mudada. Antes era bem mais difícil. Mas hoje eu acho mais fácil".
Realização e novos objetivos
Apesar das conquistas, a artista afirma que ainda tem muitos objetivos a alcançar. “Eu quero muito e posso muito ainda. Se Deus quiser, isso é só um pouco do que Deus tem pra mostrar pra mim. A minha vida é muito, muito difícil. Mas eu me encontro na música. Quantas vezes a gente não consegue ir, não quer ir, mas a gente vai e faz. É o meu trabalho. Eu sou muito grata. Eu me sinto muito realizada, mas creio que Deus tem muita coisa mais pra mim”, diz emocionada.
Para quem está começando na música, ela deixa um conselho direto.
“Eu sou um exemplo de resistência, que até hoje mesmo, passando por tantas coisas, sobes e desces. Já estive no auge da fama, hoje em dia é um pouco menos. Mas vou deixar só uma palavra aqui pra vocês: nunca desista dos seus sonhos. Nunca, nunca, nunca, independente de qualquer situação. Vai e dá o teu máximo. Tenta fazer".
Carreira e maternidade
Mãe de dois filhos, MC Rita também compartilha os desafios de conciliar a rotina artística com a vida pessoal.
“Antes era mais fácil quando eu tinha um. Agora eu tenho dois. É difícil, tem que fazer aquela correria, colocar eles na escola. Mas eu tenho mais shows à noite. Eu tenho uma rede de apoio muito boa, porque minha mãe, minha sogra e meu marido também me acompanham. Quando não dá, ele fica com as crianças".
Por fim, a artista, criada na Área Continental, deixou um recado à população da região, que celebra 116 anos no próximo domingo (19), destacando sua própria história como exemplo.
“Parabéns para a Área Continental. E quero falar pra todos vocês usarem a minha história como inspiração. Quem me acompanha sabe, me viu crescer aos poucos. Eu era de uma família que não tinha condições nenhuma. Já precisei de ajuda, já passei por essa situação de fome. E hoje em dia eu mudei a história da minha vida. Então eu quero falar pra vocês que qualquer oportunidade que vocês tiverem de mudar de vida, de estudar, de gravar uma música, de fazer um curso, abracem".
Por Maria Fernanda Lopes