Na Maternidade Municipal de São Vicente, profissionais de saúde não cuidam apenas dos bebês, mas também da vida das mães e das famílias. Assistentes sociais, enfermeiras e auxiliares de enfermagem enfrentam desafios diários com sensibilidade e humanização, demonstrando que o cuidado e a dedicação podem transformar vidas.
Maura da Silva, auxiliar de enfermagem da maternidade há 13 anos, construiu sua trajetória movida pelo cuidado. Ela trabalhava na área financeira no setor privado, mas uma experiência pessoal a fez migrar para a área da saúde. “Sempre fui da área financeira, mas ingressei na enfermagem para cuidar de minha mãe, pois ela tinha a saúde debilitada. Parei por três anos de trabalhar, fiz o curso de enfermagem e cuidei dela até o último suspiro de vida. Após ela falecer, continuei na área”, compartilha.
A mudança de profissão trouxe alguns desafios. “No início, tive que me adaptar a lidar com pessoas, pois minha vida era centrada em números. A cada dia fui aprendendo algo novo, especialmente sobre como me conectar com as pessoas. Hoje eu gosto da área em que estou, algo que eu não imaginava. Me dedico de coração, não apenas por necessidade, mas com a consciência de que servir ao próximo me ajuda a crescer como ser humano”, ressalta Maura.
Uma experiência que marcou sua carreira foi acompanhar uma mãe adotiva em seus primeiros momentos com o bebê. “Uma história em especial foi profundamente emocionante. Era um casal que, após anos de tentativas frustradas para gerar um filho biológico, decidiu abrir o coração para a adoção. Tive o privilégio de acompanhar, desde o primeiro momento, o contato dessa mãe com seu bebê. Ajudei a colocá-lo para mamar, mesmo ela achando que não seria capaz. Quando o bebê começou a sugar, ela, emocionada, agradeceu a Deus por se tornar mãe. Ela conseguiu amamentar, apesar de não ter gerado aquele bebê tão lindo. São momentos como esse que prefiro guardar, porque as experiências positivas, com toda a sua carga de emoção e transformação, são as que realmente marcam o meu coração”.
O olhar sensível do Serviço Social
Quem também vive histórias emocionantes é a assistente social Tathiane de Magalhães Pereira Lopes, há 13 anos na Maternidade.
“Uma gestante chegou à Maternidade em trabalho de parto, sendo resgatada pelo SAMU debaixo de uma ponte após fazer uso de entorpecentes. Ela nos contou que, ao sentir dores, não sabia o que fazer e, então, recorreu à droga para tentar aliviar o sofrimento. Na alta do bebê, ele saiu da Maternidade sem a mãe, mas ela esteve presente em todos os momentos de internação do filho.
A mãe foi encaminhada para tratamento ambulatorial e fez uma promessa à equipe: comprometeu-se a superar suas vulnerabilidades, colaborar com os profissionais do Serviço Social e da Psicologia e seguir o tratamento. Além disso, prometeu retornar à Maternidade com seu filho, para que pudéssemos acompanhar sua jornada de recuperação.
E foi exatamente isso que aconteceu: ela cumpriu sua promessa e, meses depois, voltou à Maternidade com o bebê nos braços, mostrando que a força para mudar está, muitas vezes, dentro de nós”.
Ser assistente social veio de uma experiência de infância, como ela conta. “Cresci em uma infância difícil, marcada por problemas sociais. Para minha família e comunidade, os assistentes sociais eram a referência para conseguir alimentos, cestas básicas e brinquedos, especialmente em datas comemorativas como o Dia das Crianças e o Natal. A importância desses profissionais fez toda a diferença na minha vida e, quando chegou o momento de escolher uma profissão, foi isso que me inspirou a seguir a carreira de assistente social”.
Essa experiência a ajudou a entender o papel que exerce na vida das futuras mães da Cidade.
“A profissão de assistente social é desafiadora, e minha experiência na Maternidade me fez perceber o quanto essa área é sensível. Os desafios são ainda maiores, pois lidamos com as vulnerabilidades sociais do bebê desde a gravidez, antes mesmo de seu nascimento, e com mães que enfrentam sofrimentos profundos, muitas vezes relacionados a vivências que fragilizam sua capacidade de assumir o papel materno naquele momento.
Esse contexto me fez desenvolver um cuidado especial ao pensar nas estratégias de abordagem e acompanhamento, sempre com o objetivo de desconstruir a ideia de que minha intervenção poderia ser vista como julgamento de vidas. O que busco, na verdade, é fazer com que a mãe, em seu sofrimento, entenda minha importância na vida dela e de seu filho, independentemente do caminho que percorremos juntas.
Às vezes, o resultado da nossa atuação é uma alta hospitalar em que mãe e filho saem juntos; em outras, mãe e bebê precisam seguir caminhos separados por um tempo, mas sempre com o compromisso de cuidar, acolher e apoiar em cada passo”.
Educação Permanente: cuidado que salva vidas
Luciana Santos de Freitas Melo, enfermeira da Educação Permanente na Maternidade, carrega consigo uma trajetória marcada por dedicação e paixão pela saúde. Desde criança, sempre cuidou da família, um instinto que foi fortalecido quando uma tia percebeu seu potencial e a incentivou a seguir na profissão.
A Educação Permanente, área na qual Luciana se especializou, chegou à sua vida como um convite inesperado, mas que logo se tornou um verdadeiro presente.
“A Educação Permanente chegou à minha vida através do enfermeiro Danilo e, posteriormente, por meio de um convite da enfermeira Tatiana Brito. Desde então, passei a enxergar sua grande importância estratégica, pois ela não só garante a segurança do paciente, mas também reduz danos e erros, promove a humanização do atendimento e combate a violência obstétrica. Além disso, prepara os profissionais para agir de forma eficaz em emergências”, explica Luciana.
Para ela, a Maternidade é um lugar onde cada dia é especial. “Cada trabalho de parto, cada choro do recém-nascido, cada troca de roupinha do bebê é um acontecimento único. É uma verdadeira celebração da vida”, reflete.
Luciana acredita que a enfermagem vai além de tratar doenças. Para ela, o trabalho envolve um cuidado integral, que considera o paciente como um ser biopsicossocial e transforma o conhecimento científico em cuidado humano e empático.
Como enfermeira da Educação Permanente, ela tem um papel fundamental em garantir um cuidado seguro e humanizado às pacientes. Seu trabalho também fortalece e capacita os profissionais da Maternidade.
“Eu vejo minha missão como algo que traz propósito, estabilidade e orgulho para minha vida. Além disso, fortalece minha família, pois sei que, ao capacitar outros profissionais, estou contribuindo para uma saúde pública mais eficiente e mais humana”, afirma Luciana.
Guilherme Gebara