Há cerca de 40 anos, Vera Lúcia da Silva Corumba e Anderson Corumba dividem a mesma rotina, o mesmo ofício e o mesmo endereço afetivo: São Vicente. Ela tinha sete anos quando se mudou para a Rua Eurico Gaspar Dutra, onde passou a morar com a família, na Cidade Náutica. Anderson Corumba, dois anos mais velho, vivia duas casas à frente, na calçada oposta. “A gente se conheceu criança ainda. Brincava junto, era amigo, depois adolescente”, recorda.
A parceria, que começou ainda na juventude, atravessou o tempo e se consolidou no artesanato, feito a quatro mãos e carregado de referências da Cidade onde vivem.
A amizade virou namoro, o namoro virou parceria. “A gente foi se tornando melhores amigos, depois namorados, e começou a trocar ideias. Às vezes eu fazia artesanato de um lado, ele fazia do outro”, conta. Anderson havia trabalhado em tamancaria, lidava com madeira, técnica e precisão. As habilidades se encontraram naturalmente.
O casamento veio, assim como os filhos. Foram quatro gestações; um menino faleceu ainda bebê, aos dois meses de vida. “Ele não está aqui com a gente, mas está no nosso coração”, diz Vera. Ficaram três filhas (Letícia, Priscila e Adriele) e, com o tempo, seis netos (Bryan, Agatha, Davi, Kyara, Laura e Isabelle). A casa seguiu cheia de movimento, ideias e mãos ocupadas.
Trabalhar junto nunca foi um desafio. Sempre foi escolha. “A gente não é só um casal. A gente é amigo, parceiro. A gente constrói tudo junto”, afirma Vera.
A rotina se divide entre feiras, produção, compra de materiais e apoio mútuo. Quando um está ausente, o outro representa. “Se eu estou na feira, estou representando o trabalho dele. E vice e versa”, explica.
Anderson ficou conhecido como Anderson Leleco Souvenir. Desde criança, sempre ligado ao artesanato, encontrou nas produções uma forma de contar a história de São Vicente por meio da arte. “Eu faço trabalhos representando a Cidade”, resume. As caravelas surgiram dessa intenção, pensadas a partir da história local, dos pontos turísticos e das caravelas que remetem à chegada de Martim Afonso.
“A criação das caravelas foi minha, junto com a Vera. A gente junta o que um pensa com o que o outro traz”, conta.
Entre as peças, uma tem valor simbólico especial: a Ponte Pênsil.
“A Ponte Pênsil é um ponto de ligação de dois lugares diferentes, assim como eu e minha esposa”.
O trabalho do casal ganhou projeção e atravessou fronteiras. As peças já chegaram a países como Japão, Portugal, Indonésia e Dubai, além de vários estados brasileiros. Ainda assim, o reconhecimento mais importante permanece no contato direto com o público. “Não é questão de valor. É ver a pessoa levando o trabalho satisfeita, reconhecendo o que é um artesanato”, afirma Vera.
O envolvimento com a Cidade nunca se limitou à produção artística. Vera é presidente de uma associação de artesãos e artistas plásticos de São Vicente; Anderson ocupa a vice-presidência. O casal participou da criação do primeiro empreendimento de economia solidária do Município, quando o tema ainda não era debatido. Também atuam em conselhos municipais, como o de Turismo e Cultura, além de terem integrado o Conselho de Economia Solidária.
A relação do casal com a história vicentina também passou pelo palco artístico do maior espetáculo em areia de praia do mundo. Durante dez anos, Vera e Anderson participaram da tradicional Encenação histórica da Cidade. Anderson interpretava o papel de padre, enquanto Vera atuava como corista portuguesa e assumia outros personagens conforme a necessidade do espetáculo. As três filhas do casal também integraram as apresentações, dando vida a figuras como indígenas, caravelas, coros e outros papéis. Foram experiências que uniram família, memória e pertencimento.
Anderson lembra da primeira loja colaborativa montada na Cidade, no Parque Cultural Vila de São Vicente. “Foi a primeira loja colaborativa daqui, com 40 artesãos e dois artistas práticos. A gente também já deu aula na Vila, na Praça 22, no teleférico, participou de vários eventos culturais”.
Além disso, os dois mantêm o projeto social “Amar ao Próximo como a si mesmo”, voltado à produção gratuita de almofadas, máscaras e próteses artesanais para mulheres que passaram por mastectomia. O trabalho atende hospitais e instituições de São Vicente, Santos, Praia Grande, Cubatão, Guarujá e São Paulo.
“Às vezes a gente tira dinheiro do bolso, mas tira com prazer. É uma forma de agradecer pelo que a gente tem”, ressalta Anderson.
Futuro
A herança do artesanato segue viva na família. A filha mais velha, Letícia Corumba, também é artesã, e já realizou trabalhos e aulas em São Vicente e em projetos do Governo do Estado. Os netos acompanham feiras, ajudam, observam. “Eles veem um papelão e já querem construir alguma coisa. A gente incentiva”, conta Vera.
Para o casal, o artesanato não é apenas meio de sustento. “O que a gente faz com a mão não tem preço. É um dom”, diz Vera. Anderson concorda: “É uma forma de viver com mais amor, mais respeito e mais compreensão”.
A relação com São Vicente segue no mesmo tom. “A gente é apaixonado pela nossa cidade. O amor que a gente sente um pelo outro é o mesmo que sente por ela”, afirma Vera. “A gente só quer ver São Vicente crescer, se desenvolver, receber bem quem mora e quem visita”, completa Anderson.
Nascidos e criados na Cidade unidos pelo trabalho e pela vida, Vera Lúcia e Anderson seguem escrevendo suas histórias no mesmo lugar onde tudo começou.
Conheça o trabalho deles:
Instagram: @veraoartes_
Projeto “amar ao próximo como a si mesmo”: https://www.facebook.com/amaraoproximocomoasimesmosv