Entre o serviço social, a psicologia e o trânsito das ruas de São Vicente, Vanessa Moura construiu uma trajetória pouco convencional. Agente de trânsito no município, ela atua diariamente em uma área ainda majoritariamente masculina, conciliando a profissão com a maternidade solo e outras frentes de atuação.
Formada em Serviço Social pela Unifesp e com pós-graduação em Psicologia, Vanessa encontrou na mobilidade urbana um campo onde pode aplicar, na prática, o entendimento sobre comportamento humano e relações sociais.
“Quando a gente pensa no trânsito, está falando de sociedade. O veículo, muitas vezes, é visto como símbolo de poder. Mas o espaço da rua é coletivo, independentemente do valor do carro ou de quem está nele”, explica.
No dia a dia da profissão, são muitas as situações marcantes. Entre elas, uma que resume bem os desafios enfrentados — especialmente por mulheres. Durante uma ocorrência, Vanessa atendeu uma motorista que havia derrubado uma motocicleta ao manobrar o carro. Pressionada por um grupo de motociclistas, a mulher estava prestes a pagar pelos danos, mesmo sem ter culpa.
“A moto estava estacionada em local proibido. Quando cheguei e expliquei a situação, tudo mudou. Aquela mulher estava desesperada, sendo pressionada, e nem sabia que estava no direito dela”, relembra.
A cena, segundo Vanessa, revela não apenas a importância da fiscalização, mas também como a insegurança feminina ainda é explorada em situações cotidianas.
Esse tipo de vivência se soma a outros desafios enfrentados por mulheres na profissão. “A gente ainda escuta comentários de que mulher não deveria estar dirigindo ou ocupando esse espaço. São falas que muitos tratam como brincadeira, mas que refletem uma cultura que precisa ser mudada”, afirma.
Para ela, ocupar esses espaços é, por si só, um ato de transformação. “O lugar da mulher é onde ela quiser estar. Nosso papel é, todos os dias, mostrar que pertencemos a esses espaços".
Criada por mulheres que enfrentaram desafios em contextos adversos, ela carrega esses exemplos como base para sua trajetória. “Eu venho de uma família de mulheres muito fortes. Isso me ensinou que eu posso estar onde eu quiser".
Conciliar a rotina profissional com a maternidade solo também faz parte dessa caminhada. Sem rede de apoio, Vanessa precisou, por muito tempo, deixar o filho em período integral para conseguir trabalhar. “É uma equação difícil, que envolve escolhas e sacrifícios. Acho que toda mãe trabalhadora ainda lida com esse sentimento de culpa em algum momento".
Apesar dos desafios, ela vê na profissão um campo de crescimento constante. “O trânsito é dinâmico, não tem rotina. A gente nunca para de estudar e precisa estar preparada para lidar com diferentes situações, sempre com responsabilidade e equilíbrio".
Vanessa também destaca que características frequentemente associadas ao feminino podem ser diferenciais na área, como a comunicação empática, a escuta ativa e a sensibilidade social. “Isso contribui para decisões mais humanizadas, sem deixar de cumprir a lei".
Para quem ainda enfrenta preconceitos, ela é direta. “Se te acham menos capaz, seja autoridade no assunto. Estude, se prepare e mostre isso na prática. É assim que a gente conquista respeito".
E deixa um recado para outras mulheres que pensam em seguir caminhos semelhantes: “Venham. Sejam a mudança que vocês querem ver. A gente pode e deve estar onde quiser, basta se preparar e ocupar esses espaços".
A trajetória de Vanessa foi tema do 6° episódio do podcast Educacast - Elas em todos os Espaços, que dá voz a mulheres que atuam em diferentes áreas profissionais da cidade. O episódio já está disponível no canal do YouTube da Secretaria de Educação de São Vicente: https://www.youtube.com/watch?v=G5wZpOmdUNM.
Por Maria Fernanda Lopes